Novembro
Silêncio. Um silêncio que nenhuma palavra pode definir. Mergulho em mim mesmo na esperança de te ouvir sussurrar o meu nome. Vou até ao fundo, olho em volta, sinto-me louco, vibrante, desesperado. Em todos os recantos da minha alma vejo o teu nome escrito a sangue...
No dia em que partiste, tinha acordado anormalmente cedo. Levantei-me, comi aquele bolo que achas horrível, bebi um café mal tirado e fumei um cigarro na varanda. A vizinha da frente já começara a sua lida diária...não sei como é que ela aguenta...lembras-te de quando nos metíamos colados à janela da sala com a luz apagada, a olhar para dentro da casa dela? 4 filhos para criar, um marido que não prima propriamente pela delicadeza, a mãe doente...naquela altura em particular, sacudia os tapetes do quarto com uma energia surpreendente, tendo em conta que é magríssima. Fiquei a observá-la um minuto e olhei para baixo. Vi o teu pai passar no “Audi” para o trabalho, não sei se ele me viu. Voltei a entrar em casa, tomei um duche rápido, fiz a barba, lavei os dentes, vesti-me e sentei-me a fazer tempo. Passei os olhos pelas fotos que estão em cima da mesa e sorri ao ver aquela em que estamos de mãos dadas na praia em Santa Cruz. Lembras-te desse dia? Era Inverno, o mar estava bravo, mas teimaste em ir para perto dele tirar a foto...mal a Joana disparou o flash, veio uma onda que nos encharcou aos dois e apanhámos uma constipação para o resto da semana!...mas naquele momento nada importava, abracei-te e caímos na areia molhada...o sal da tua boca soube-me ao mais puro mel...sempre adorei beijar-te, sentir o calor dos teus lábios nos meus, pôr em cada beijo tudo o que sinto por ti. Quando te roubei o nosso primeiro beijo, estavas linda...tínhamos ido ao castelo, estávamos numa das torres e fechaste os olhos ao sentir o vento no rosto. Abracei-te por trás e disse-te ao ouvido : “isto é muito maior do que nós...” , voltei-te e beijei-te a alma...
Olhei para o relógio, estava na hora. Desci pelas escadas, o elevador estava avariado, como sempre. Tirei o carro da garagem e fui para Lisboa, a cidade onde eu sempre disse que não queria trabalhar...pus o cd dos Oasis, abri a janela e acendi um cigarro. A viagem correu bem, fora o trânsito infernal da calçada. Quando cheguei ao centro, aproveitei a espera nos sinais para acender um novo cigarro e observar as pessoas que andavam de um lado para o outro, como autênticas formigas atarefadas. E todas com uma personalidade, com sonhos, com medos, com uma história. Só a buzinadela do carro de trás me acordou do transe em que tinha caído, o sinal estava verde há horas...
Mal entrei no edifício do Jornal, a D. Rosa, sempre atenciosa, deu-me logo os bons dias com um sorriso radioso. O Jorge já esperava por mim com aquele olhar de quem me vai dar que fazer...não me enganei. Quando dei por mim já estava de novo na rua para cobrir as declarações de mais um tarado da Casa Pia. Vim-me embora enojado e ainda tive de ir escrever o artigo.
Quando finalmente pude almoçar, fui àquele chinês onde fomos no outro dia. A dona ainda se lembrava de mim e perguntou por ti. O filho dela, de 3 anos, fez-me pensar nas vezes em que encontrávamos uma criança na rua e comentávamos o quanto queríamos ter uma coisinha daquelas só nossa. O meu maior sonho era ter um filho contigo. Imaginava-me a entrar na maternidade e a ver-te agarrada a ele, olhavas para mim e dizias com as lágrimas nos olhos: “é o nosso filho”...nada no mundo me faria mais feliz...
O resto do dia não teve mais nada de especial. Acabei aquele artigo sobre o avanço da cirurgia sem sangue e ajudei o Carlos com aquele que ele diz que será o seu “melhor artigo de sempre”...já na semana passada dizia o mesmo...
Vim-me embora logo que pude, estava demasiado farto. Quando voltei a entrar em casa, senti um alívio enorme. Fui ao bar, tirei a garrafa de licor e acendi um cigarro. A luz, ainda apagada, dava um ar envolvente á casa. As luzes de fora reflectiam no copo e o fumo do cigarro tornava a realidade turva. Fechei os olhos e deixei-me levar. Desliguei o telemóvel, mas esqueci-me da rede fixa, no entanto, nem o toque do telefone me arrancou do sofá. Esperei que o atendedor de chamadas fizesse o serviço por mim. Ouvi primeiro uma voz muito baixa que a princípio não percebi de quem era, mas quem fosse estava triste, muito triste. Eras tu. Voltei a passar a gravação até que a percebi por completo. Dizias: “liguei para o telemóvel, mas estava desligado...era só para dizer que vou passar por aí depois do jantar, pode ser? Temos de falar...1 beijo...” . comecei de imediato a limpar a casa, sei que não gostas que eu tenha tudo fora do sítio. Aqueci uma pizza no microondas, bebi o resto de um tinto que tinha sobrado da semana passada, quando o Diogo e o Artur vieram cá para jogarmos poker na mesa de jogo nova e pus-me a ver um filme enquanto esperava por ti. O tom triste da tua voz não me saía da cabeça.
Quando ouvi o barulho da porta, levantei-me e esperei que aparecesses na sala. A habitual correria para os meus braços não aconteceu, entraste de cabeça baixa, a brincar com a chave. Estavas linda como sempre. A saia comprida que eu te dei quando fizemos 2 anos, a camisola branca que era da tua mãe, o cabelo solto a cair sobre os ombros. Finalmente levantaste a cabeça, deste-me um beijo rápido e perguntaste-me o que tinha jantado, como tinha sido o dia, etc...percebi nitidamente que te estavas a preparar para me dizer algo de muito sério, mas não quis forçar. Sentámo-nos a ver o resto do filme quase em silêncio e quando acabou, pediste-me para sairmos. O ambiente estava pesadíssimo e eu sem perceber porquê. Estava quase a perguntar-te quando de repente me pediste para ir até ao castelo. Esperava que quando estivéssemos na torre, falasses comigo, mas limitaste-te a fechar os olhos e a sentir o vento no rosto. Passados alguns minutos, deste-me a mão e puxaste-me de novo para o carro, de volta a casa. Não aguentei e pedi que falasses comigo, mas recusaste. Foste a primeira a entrar em casa, não acendeste a luz e foste até à janela da sala. Depois de alguns segundos de completo silêncio, começaste a tirar a roupa. Fiquei paralisado ao ver-te fazê-lo. Quando a lua te desenhou os contornos do corpo, pareceste-me uma deusa materializada à minha frente. Completamente nua, avançaste devagar sem desviar os olhos dos meus. Pediste-me para me despir também, com a voz mais doce e sexy que pode existir, deste-me a mão e fomos para o quarto. Enrolaste um charro que fumámos a meias. Deitaste-te e eu percorri todo o teu corpo com a boca, mergulhei nos teus seios como um louco enquanto gemias de prazer. Fizemos amor de uma maneira apaixonada, louca, como se o mundo acabasse no dia seguinte. Os teus lábios ardiam, o teu corpo parecia um vulcão, tive vertigens, alucinações, pareceu-me ver tudo a andar á roda, gritei sem parar enquanto as ondas de prazer invadiam-me por todo o lado. Quando o orgasmo chegou, tive a sensação de que foi para os dois. Os nossos corpos uniram-se numa convulsão que nos quebrou o fio de prata e as almas ficaram a possuir-se no astral, numa explosão sensorial indiscritível. Quando acabámos, o suor escorria, a temperatura do quarto tinha chegado a um nível insuportável de calor, estávamos os dois completamente arrasados...mas nunca tinha sido tão bom.
Fumámos o melhor cigarro das nossa vidas, enquanto o ritmo cardíaco descia até ao normal. Abracei-te novamente e disse-te que te amava. Começaste a chorar.
Não podia aguentar mais sem saber o que te tinha levado ali, qual a razão daquilo tudo que tinha acabado de acontecer. Levantaste-te, vestiste-te e foste para a sala. Quando lá cheguei, fumavas outro cigarro, de costas para mim. Quando começaste a falar, foi como se o mundo me caísse aos pés. Vieste com um discurso todo mal articulado, em que dizias que tinha sido a nossa última vez, que irmos até ao castelo e dar a melhor queca de sempre, foi, afinal, uma despedida. Já não me amavas, tinhas encontrado outra pessoa e era melhor acabarmos agora, antes que tivesses de me trair. Não quis acreditar no que estava a ouvir, pedi-te para parares com a brincadeira, e quando vi que realmente não estavas a brincar, abanei-te aos berros, chamei-te mentirosa, não podia ser, nós tínhamos acabado de fazer amor, AMOR e não sexo, senti-te, estavas a amar-me, tu amavas-me, porque é que estavas a dizer aquilo, porquê?! A loucura e o ciúme arrancaram-me a lucidez, quis saber á força quem era, mas tu não me disseste. Olhaste para mim uma última vez e foste embora, enquanto eu chorava de raiva e dor. Vi-te sair a toda a velocidade no Peugeot, numa direcção oposta á tua casa. Calculei logo que fosses ter com ele, ceguei-me completamente, rasguei as fotos da sala, parti a jarra que me deste e deitei-me no chão completamente contorcido, a chorar sem parar. Queria morrer, queria esquecer, queria que tudo aquilo não passasse de um sonho, e fiz por acreditar nisso. Enrolei 2 charros e fumei-os de seguida, bebi de tudo o que tinha em casa, peguei no carro e fui até Santa Cruz, comprei 1 garrafa de vodka no Café Parque e fui para a praia. Deitei-me ao comprido na areia, desejei enterrar-me nela e desaparecer, levantei-me e corri como um louco aos gritos, pedi ao penedo do guincho que me caísse em cima, tal era a dor que sentia. Entrei no mar e quase morria afogado, se um pescador não tivesse arriscado a própria vida para me salvar. No caminho de volta para o carro, vi as pessoas olharem para mim com um olhar reprovador. Estava-me a cagar. Odiava-as. Odiava-as mais do que nunca. Já na estrada, não fiz uma curva e bati contra um muro. Acordei no dia seguinte no hospital, com a minha mãe a segurar-me a mão e um médico a dizer-me que tinha tido muita sorte...quis saber se estavas lá, mas não. Tinhas apenas telefonado há 10 minutos, só para saber como é que eu estava, mas nem sequer foste ao hospital. Deram-me alta ao fim da tarde, despedi-me a custo da minha mãe que queria à força ir passar a noite comigo e fui-me embora. Nunca me senti tão sozinho. A casa, que tinha sido um sonho realizado, parecia-me agora um autêntico mausoléu. Em cima da mesa estavam as tuas chaves, que tinhas deixado sem eu perceber. Os restos das nossas fotos estavam espalhados pelo chão. Juntei-os, mas não tive coragem de os deitar fora.
Também não fui capaz de me deitar na cama.
Estive para pedir baixa, mas optei por não o fazer. Nos dias seguintes absorvi-me completamente no trabalho, para tentar não pensar. Na primeira semana fui dormir a casa da minha mãe, só depois tive coragem de voltar para a minha. Aos poucos recomecei a sair e a estar com as pessoas. Fui distinguido como o melhor jornalista do Público, graças aos meus recentes artigos. Estava finalmente a recuperar.
Remodelei a casa, troquei de cama e escondi tudo o que pudesse lembrar-me de ti. Sentia-me de novo bem nela, tanto que comecei a trazer trabalho para fazer no portátil, porque já me conseguia concentrar novamente estando lá. Foi no meio de um artigo, numa noite escura de Novembro, ás 3 da manhã que o telemóvel tocou. Era a tua mãe. Ligou para dizer que tinhas morrido.
Quando cheguei ao hospital, ela abraçou-me a soluçar e disse que tinha uma coisa para me entregar. Era uma carta tua. Fui para a varanda, acendi um cigarro e comecei a ler, enquanto as lágrimas me escorriam pela cara.
“há meses atrás comecei a sentir dores horríveis na barriga. Não te quis dizer nada para não te afligir, e fui ao médico sozinha, no dia em que estivemos juntos pela última vez. Disseram-me que tinha um cancro em estado avançado e incurável. Contei aos meus pais mas nunca quis que soubesses. Preferi inventar aquela estória toda, porque por mais que ela te tenha feito sofrer, sei que não se compara ao que sentirias se me visses a morrer aos poucos. Amo-te demasiado para te fazer passar por isso. Chorei de felicidade quando vi a notícia do teu prémio, e de dor por não poder festejar contigo. Sempre soube que chegarias onde quisesses.
Toma bem conta da casa, não deixes as coisas todas espalhadas como sempre!...lutaste muito para a ter...
Peço-te que apoies a minha mãe nestes primeiros tempos, sabes que ela te adora... não imaginas o quanto foi difícil para ela não te dizer nada...
Não quero que desistas do teu sonho de ter um filho. És um homem maravilhoso, não vais ter dificuldade alguma em arranjar outra pessoa e tenho a certeza que também a irás amar. Só não sei se ela te amará tanto como eu te amei...
Perdoa-me.
Amo-te muito.
Ana”
A Primavera começa a florir. Os dias já são mais longos, as folhas orgulham-se do seu verde, a vida renasce. Estou no castelo, na torre onde tudo começou. O teu funeral já foi há quase 4 meses, mas só agora consegui vir aqui. Tenho as nossas fotos que rasguei. Tentei uni-las novamente, mas estão demasiado rasgadas, assim, optei por entregar-tas.
Pego nelas e deixo-as ao vento. Fecho os olhos e sinto-o no meu rosto.
Deixo cair uma lágrima enquanto alguém me beija a alma...
